O Brasil precisa de uma ESCOLA (JE 268) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
16-Mai-2013


A sociedade brasileira clama por uma nova escola. Todos os profissionais ligados à assistência social, economia, saúde e segurança sentem a necessidade e no direito de interferir no dia a dia da escola. Há alguns anos tentou-se estabelecer que as escolas deveriam ter um psicólogo, um dentista, um médico, uma enfermeira, um orientador educacional, um supervisor educacional e mais recentemente, tramita no congresso um projeto que prevê a inserção de um assistente social.
Por outro lado, projetos impondo  conteúdos e disciplinas obrigatórias e optativas como sociologia, filosofia, ensino religioso, espanhol, história africana, música e uma infinidade de outras já foram aprovados ao longo dos anos pelo congresso nacional. 
Leis ou orientações fadadas ao não cumprimento, ou à desobediência civil, se é que podemos dizer isso, pois que as escolas são administradas pelos governos municipais, estaduais e federal. E, portanto, são órgãos oficiais. 
Afinal, os professores em atuação na sala de aula, que efetivamente fazem o ensino acontecer (ou não) são os primeiros a “apanhar” com as críticas de todos os lados e os últimos a usufruir das verbas destinadas à educação. 
A visão de quem está “de fora” do sistema educacional é que há dinheiro para tudo na educação que, via de regra, tem o maior orçamento público tanto nos municípios, quanto no estado e federação. Mas a realidade de quem está “por dentro” fazendo a educação acontecer efetivamente, é a de que não tem dinheiro para nada. 
E pior ainda, quando consegue ser selecionado para um programa de capacitação internacional com tudo pago por outros órgãos, como é o caso dos professores de inglês que estão fazendo cursos de aperfeiçoamento nos EUA, dentro do programa PDPI, muitas vezes não conseguem ser liberados com remuneração por seis semanas, sob a alegação de que a lei não permite. 
Mas para qualquer outro profissional e político, há sendo uma lei que possibilita, inclusive viajar às custas do poder público. Neste país, em que as empresas privadas pagam as despesas de profissionais que queiram se aperfeiçoar no exterior, esta é mais uma das muitas contradições. 
Afinal, os governos querem ou não melhor qualidade de ensino? E o que seria essa qualidade de ensino que todos dizem querer? 
Para completar, a cada dia,  aparecer  mais  uma categoria profissional querendo ajudar a ensinar. Uma nova disciplina ou contéudo para ser ensinado no currículo já insuportavelmente enorme dos diversos níveis de ensino. 
E são sempre os professores quem tem que dar conta de tudo. Os diretores cobram, os alunos cobram (mas não querem), os pais cobram, os secretários da educação cobram e planejam e fazem projetos. 
Todos querem mandar na escola, dizer o que o professor deve ou não fazer em sala de aula, mas a recompensa e os resultados são sempre muito inferiores do que o esperado, inclusive pelos professores. Afinal, como já disse Albert Einstein,  insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultado diferente”. 
E esta é a realidade do Brasil. TODO MUNDO DIZ, FALA, PROMETE, mas ninguém faz diferente: uma alteração completa no sistema escolar e educacional brasileiro. 
O Brasil carece de escolas efetivamente equipadas, com material didático e professores em condições de dar conta de tudo o que deveria ser ensinado e de alunos efetivamente interessados em aprender pelo menos parte do que precisa ser aprendido. Afinal, a prontidão do aluno é resultado da cultura que vem de casa. 
Se os país acreditarem na escola como meio para sair da pobreza (como foi no passado), como espaço sagrado do saber; e educarem seus filhos com este pensamento, as crianças e jovens virão para a escola com a educação básica de casa e a escola poderá resgatar seu papel fundamental: ensinar o saber científico.  
A escola brasileira precisa ser reconstruída. É preciso “demolir” as pequenas escolas que atendem a um pequeno número de alunos, gastando o mesmo recurso que uma grande escola, totalmente equipada (inclusive com recursos humanos) e com equipe multidisplinar que poderá atender com qualidade e, em tempo integral, a todos os alunos. 
É preciso acordar para a realidade brasileira e otimizar os recursos da educação, acabando com os desvios, inclusive de finalidade da escola. Assim como as indústrias têm milhares de vagas em aberto por falta de profissionais habilitados, as escolas têm milhares de vagas para professores, especialmente bons professores. Algumas áreas, como química e biologia, sequer tem profissionais formados em condições de assumir vagas, outras precisariam ter salários pelo menos 10 vezes maiores para atrair os formados para o magistério. 
Também as escolas carecem de infraestrutura, tanto física, como de recursos humanos. Recursos humanos entendidos como gestores, professores e estudantes. Enquanto isso, profissionais de todas as áreas continuarão a querer entrar na educação para “ajudar o professor a ensinar” e dividir a verba da educação, que deveria ser para pagar adequadamente as professoras e professores. 
Assistentes sociais, psicólogos, dentistas e outros profissionais de nível superior, via de regra, ganham muito mais atuando em outras áreas. Dificilmente estes profissionais aceitariam os mesmos salários dos professores. Então, os “auxiliares do processo de ensinagem” ganhariam mais do que o professor. Basta ler os editais de concurso público para perceber que até operador de trator e retroescavadeira, com ensino primário, ganha mais do que professor. 
Os empresários  catarinenses resolveram investir em educação e estão financiando dezenas de cursos para os estudantes de escolas públicas, especialmente os do ensino médio. As empresas precisam de profissionais minimamente habilitados a resolver problemas e fazer contas usando as quatro operações matemáticas básicas e a ler, compreender e interpretar textos técnicos e escrever relatórios. 
Ao mesmo tempo, as escolas precisam de professores minimamente capacitados no conteúdo que devem ministrar e a usar os recursos tecnológicos para auxiliar na “ensinagem” em sala de aula. 
Escolas maiores, no modelo europeu ou americano, nas quais o professor recebe os conteúdos e atividades de   aprendizagem previamente programados e as avaliações de aprendizagem são também externas, podem ser um bom modelo para o Brasil. 
Nestas escolas em que os alunos estudam pelo menos seis horas diarias, a avaliação da aprendizagem é feita por meio de testes preparados por coordenadores de áreas,  de acordo com o conteúdo programático de cada disciplina e nível de ensino. E aplicados geralmente por gerências regionais de ensino mensal, bimestral, semestral ou anualmente. 
Ao mesmo tempo em que atender a um número maior de alunos no mesmo espaço físico, a escola poderá ser melhor equipada tecnologicamente. Os professores poderão dedicar-se a ensinar  especialmente se não tiverem a responsabilidade total sobre o processo de avaliação do estudante e nem que se deslocar de uma para outra escola para dar mais de 40 horas por semana.   
As atividades de planejar o conteúdo, preparar o material didático, aplicar e corrigir provas e fazer recuperação paralela, e aplicar nova prova e corrigir e usar a nota mais alta,  como é feito em Santa Catarina, duplica o trabalho do professor, profissional de nível superior com uma das mais baixas remunerações do País. 
A nova escola brasileira deveria ser uma escola capaz de formar cidadãos que não aceitem tudo como subordinados, de formar cidadãos capazes de usar o conhecimento produzido pelas gerações anterior para criar novos conhecimentos, inventar   ou recriar a própria ciência. 
Enquanto não aparece alguém com coragem para isso, a profissão de professor vai entrando na fase final de extinção. Já começamos a nos perguntar, se haverá alguma organização com projeto para “salvar a espécie”. 
Todos querem ajudar a ensinar, mas quem se habilitará a assumir a responsabilidade de ensinar, como fazem os professores?
Até quanto a sociedade brasileira continuará a MANDAR a escola fazer isso ou aquilo? A cobrar quase que exclusivamente do professor ensino de qualidade? E a incluir mais e mais categorias na divisão da verba que deveria ser usada para educação? 
Não podemos perder de vista pesquisas que já apontaram que somente 10% da verba da educação é aplicada na atividade de ensino propriamente dita, o resto se perde na burocracia da administração pública ou nos programas de assistência, como a distribuição de uniforme escolar, que de ensino, nada tem. 
É, a sociedade brasileira clama e o Brasil precisa, COM URGÊNCIA, de uma escola eficiente e eficaz. 

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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