A escola o templo do saber (Edio 261 julho 2012) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
03-Ago-2012


Pesquisas realizadas recentemente por instituies de respeito e com objetivos distintos constataram a profundidade do problema da falta de qualidade do sistema educacional brasileiro.
Uma das pesquisas constatou que pouco menos de 20% dos contedos mnimos para cada srie so estudados em sala de aula. A outra, que os professores no esto preparados, ou no querem, usar tecnologias como o computador e a internet como ferramenta de aprendizagem. A maioria ainda tem mais problemas com os alunos por causa das tecnologias do que as usa em benefcio da aprendizagem.
Essas constataes nos reportam a uma discusso antiga na escola: o distanciamento entre os profissionais e a metodologia usada nas sries iniciais e os usados nas sries finais do ensino fundamental e o distanciamento ainda maior entre o ensino fundamental e o mdio.
Nossas crianas aprendem na educao infantil que a escola lugar de brincar e fazer amigos e isto est absolutamente certo, mas somente para esta fase. Mas no concebvel que o adolescente chegue ao ensino mdio com esta mesma viso de escola.
Caso contrrio, continuaremos a ter os professores das sries finais e do ensino mdio gastando mais tempo e energia com a indisciplina em sala de aula do que com a aula propriamente dita.
A ludicidade como mtodo de ensino necessria na educao infantil, mas prejudicial j nas sries ps-alfabetizao. No que a brincadeira e o riso devam ser banidos das salas de aula, ela apenas deve dar lugar ao bom humor e alegria de aprender. Mas no pode perdurar ao longo de toda a formao bsica como nico meio de levar os alunos a aprendizagem. Isso inadmissvel.
H muito se diz que pensar di; e se di, no brincadeira. Se na educao infantil a criana precisa brincar e aprender ludicamente sobre o mundo e a convivncia com os outros seres para criar o gosto pela escola e pelo viver em sociedade, nas sries finais, este gosto deve dar lugar cidadania. A sociedade mais do que o indivduo, o bem coletivo precisa estar acima do prazer individual.
Nas sries iniciais os estudantes entram no mundo letrado e aps a alfabetizao j preciso conviver com a seriedade da cincia e aprender que o mundo no est aqui para nos servir e sim ns devemos servir ao mundo, melhorando-o cada vez mais. Portanto, preciso estipularmos uma convivncia com base no respeito mtuo e na relao sadia com o saber cientfico. Cada um deve saber saiba qual , e faa a sua parte na a sociedade em que vive.
J nesta fase, a ludicidade deve estar presente em forma de bom humor, mas de modo organizado e institucional. Os limites entre a brincadeira, o bom humor e o respeito devem ser claramente colocados pelos professores e respeitados pelos alunos. Os demais profissionais da escola e os pais precisam trabalhar para que o professor consiga fazer sua parte, pois preciso criar a cultura de escola como templo do saber. Tudo e todos devem trabalhar neste sentido.
E num templo, no se brinca, no se veste qualquer roupa, no se come, no h desrespeito pelo agente do conhecimento. No templo do saber se estuda, se ensina e se aprende como numa sinfonia harmnica, com tranqilidade e seriedade. , provavelmente, nas sries iniciais que reside o ponto de partida para os maiores problemas para a criao desta cultura de escola como templo do saber.
Nesta fase, a m preparao do professor e a relao quase familiar de professora e aluno dificulta a criao do hbito do estudo. A principal dificuldade reside no equilbrio entre o humor, a ludicidade e a seriedade necessrios verdadeira aprendizagem. H de se pensar num meio de estudar e aprender com leveza, tranqilidade e felicidade pelo aprender a aprender. Estudar, pesquisar e aprender com seriedade e respeito pelo conhecimento produzido pela humanidade ao longo de centenas de anos de pesquisa cientfica, so essenciais para criar a cultura de escola como templo do saber e isso no brincadeira.
Do modo como estamos, os professores sem formao adequada para ensinar o essencial, limitando-se a passar o tempo com os pequenos, o abismo entre as sries iniciais e finais do ensino fundamental vai se transformar em poo sem fundo. As crianas, e isso que a maioria , ao terminar o ensino fundamental, so aprovadas sem mesmo ter aprendido os 20% que lhe foram ensinados.
Assim, sem cultura de estudo, sem cultura de escola e sem conhecimento bsico chegam s sries finais para terem aulas com professores que no conhecem e no compactuam com a cultura do ldico e sequer tm tempo para saber dos problemas familiares individuais. Em muitos casos, sequer conseguem saber o nome de seus mais de 500 alunos.
Assim, sem cultura de escola, os alunos caem no abismo e os professores perdem mais tempo tentando conseguir a ateno e o silncio do que ensinando. Os alunos chegam perdidos, misturando contedos nos diversos cadernos (aqueles que tem caderno). Sem a cultura de escola, de organizao individual, rapidamente descobrem que existe uma barreira entre a brincadeira desejada e a aprendizagem necessria.
E se as pesquisas constataram que os professores no conseguem cumprir sequer 80% do contedo e tambm no sabem (ou no querem) usar os computadores e a internet como ferramenta, o dia a dia e as notas dos alunos em testes externos e internacionais mostram tambm que os professores esto despreparados para dar aula para os alunos que se apresentam em sala de aula.
E pior do que isso, estamos constatando que os estudantes secundaristas, que j vem de uma cultura de descaso com a prpria formao, tambm no querem ser professores. E se sabemos que em educao levamos pelo menos dez anos para ter algum resultado, podemos inferir que o Brasil est em queda livre em relao principalmente a qualidade de ensino.
Vale lembrar que levamos quase 100 anos para universalizar o ensino fundamental (as primeiras escolas pblicas comearam a funcionar na dcada de 1920); e ainda estamos longe de universalizar o ensino mdio e a educao infantil. E, pior do que isso, levaremos 30 anos para consolidar um plano que deveria ser decenal (LDB 1996). Com mais estas constataes, quantos anos teremos ainda que usar para superar a lentido das solues brasileiras?
Enquanto isso, o mundo mergulha numa crise econmica que no passa ao largo do Brasil. E nosso pais sequer tem cidados formados para ocupar os postos de trabalho que a indstria vem abrindo. Falta o essencial a nossos adolescentes e jovens, a cultura do aprender pelo conhecimento, a cultura da seriedade e do respeito a si prprio, ao outro e ao ambiente. Muito se fala, pouco se faz.
Portanto, o problema de nossa escola est nela mesma. E se ela parte do problema, a soluo tambm est nela mesma. O crculo vicioso da m formao bsica, mdia e do professor precisa ser quebrado. Cabe ao professor, o profissional responsvel pela aprendizagem na escola, quebrar este crculo vicioso j nas primeiras sries do ensino fundamental.
Mas ele no conseguir fazer isso sozinho. preciso, antes de tudo, os professores das sries finais entenderem esta necessidade e ajudarem seus colegas dando-lhes suporte. Seja tentando minimizar a carncia de contedo das disciplinas chaves, no adquirido na faculdade, seja de metodologia de ensino que leve a aprendizagem real e prxima da realidade e das necessidades do aluno.
Estudar e aprender precisam deixar de ser brincadeira. Respeito do que precisamos. Respeito pelo tempo gasto na escola, pelo dinheiro pblico investido e, principalmente, pela cincia produzida pelo homem para melhorar nosso mundo. A escola precisa ser o templo do saber e o saber a essncia do humano.


Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
diretora, editora e jornalista do Jornal da Educao (ISSN 2237-2164)e do Jornal do Santos Anjos.Mestre em Educao e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membrodo Comit de Planejamento Estratgico de Educao, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentvel de Joinville, do Comit Regional de Educao da SDR-Joinville. voluntria na Comisso OAB vai Escola, da seccional de Joinville.
 
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