Contestado e a Escolarização (junho 2012) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Norberto Dallabrida   
28-Jun-2012


No final do mês passado, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), realizou-se o "Simpósio Centenário Contestado 1912-2012". O intuito desse evento científico foi marcar os 100 anos do início da chamada "Guerra do Contestado" por meio de reflexões históricas sobre o Contestado como um processo social multifacetado.

A Guerra do Contestado, que ocorreu em Santa Catarina, entre 1912 e 1916, tem riqueza histórica singular devido às práticas do catolicismo popular, mas sobremaneira pela presença do capital norte-americano, representado pela Lumber Company, que invadiu as terras dos posseiros, desencadeando esse conflito social. Essa rebelião de posseiros cicatrizada pela repressão do Exército brasileiro foi objeto de várias obras, entre as quais se pode destacar "Geração do Deserto", do escritor Guido Wilmar Sassi, e "Lideranças do Contestado", do historiador Paulo Pinheiro Machado.

O simpósio da UFSC não ficou restrito à chamada "guerra santa", mas procurou analisar diferentes ângulos dessa questão do Contestado. Um primeiro conjunto de trabalhos focalizou as manifestações do catolicismo popular de corte luso-brasileiros como a liderança de monges e o messianismo. Em segundo lugar, as questões sócio-econômicas foram pautadas, entre as quais se destacaram a construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande e o intervenção da Lumber Company. Ademais, outros temas foram abordados como o emprego inédito de aviões e a expansão da colonização pós-guerra, bem como revisita a questões historiográficas.

À luz da história da educação catarinense, constata-se que a região do Contestado era praticamente abandonada pelo sistema público de ensino, mesmo no regime republicano. As escolas isoladas de caráter estadual eram em número insignificante e a Reforma Orestes Guimarães, que modernizou o ensino primário catarinense entre 1911 e 1913, na Serra Catarinense, chegou somente até Lages, com o estabelecimento do Grupo Escolar Vidal Ramos naquela cidade. De outra parte, as redes de escolas étnicas e/ou religiosas, muitos vigorosas, estabeleceram-se sobretudo na área dos vales entre o litoral e o planalto e não se estenderam até a região do Contestado.

No ano do seu centenário, a Guerra do Contestado é lida sobretudo como um processo social plasmado pela violenta desapropriação de posseiros por uma empresa multinacional norte-americana e pela repressão do Exército, indicando ausência de democracia, que também tinha uma faceta escolar.

* Professor Doutor Norberto Dallabrida é professor da UDESC e co-autor de "A Escola da República: os grupos escolares e a modernização do ensino primário em Santa Catarina (1911-1918), Editora Mercado de Letras, 2011. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

Norberto Dallabrida
Sobre este autor:
Professor na UDESC e autor de "A fabricação escolar das elites: O ginásio Ginásio Catarinense na Primeira (Editora Cidade Futura) e O tempo dos ginásios: ensino secundário em Santa Catarina (final do século XIX meados do século XX). Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
 
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