E a verba da educação vai para as eleições(Junho 2012) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por MARIA GORETI GOMES   
28-Jun-2012


Inúmeras instituições estão cobrando meio ingresso para teatro, cinema e espetáculos para professores. Basta comprovar a condição de professor e pagar metade. Ou seja, o meio artístico cultural já acordou para o valor do professor e sua importância na criação de público e difusão cultural do país.

Esperemos que os próximos a acordarem para o valor social do professor sejam os políticos, especialmente neste que é o ano das eleições municipais. Vale lembrar que serão centenas de milhares de professores candidatando-se e todos devem afastar-se das funções no próximo mês.

Junho é o mês das convenções partidárias para homologar os candidatos às próximas eleições de outubro. Em todo o Brasil, mais de 5 mil municípios terão suas ruas invadidas por milhares de candidatos a prefeito, vereador e a cargos de secretário ou assessor já exercidos de fato durante a campanha e somente oficializados depois das eleição. Afinal, ninguém trabalha de graça. Novamente voltamos nossas atenções aos tribunais eleitorais e as perguntas sobre a validade ou não da "ficha limpa", as reais intenções dos políticos e até mesmo atribuições e remuneração dos cargos disputados com tanto afinco por centenas de candidatos.

Nas redes sociais dezenas de petições populares para, entre outras coisas, pagar salário mínimo a senadores, deputados e vereadores. Talvez esta fosse a grande solução para o país. Mas só talvez.

Noutra ponta desta frágil caminhada estão as escolas, redutos eleitorais de muitos políticos, especialmente nos municípios em que cargos de diretor de escola e outros são indicações políticas. Eventos, inaugurações, comemorações, tudo deve ser realizado no mês de junho. A lei eleitoral condena esta prática. A partir de julho, os candidatos não poderão participar de eventos, substitutos não poderão mais ser contratados e muitos professores e outros funcionários públicos deixarão as escolas para, recebendo os salários normalmente, dedicarem-se exclusivamente à campanha.

Os professores, mesmo os não candidatos, também se mobilizam em torno das eleições, desenvolvendo trabalhos pedagógicos com o intuito de criar a consciência cidadã em seus alunos ou participando ativamente nas campanhas. E enquanto centenas de salas de aula ganharão substitutos, afinal, apesar de não se considerar funcionário público, o cargo de professor é público.

E, exatamente por se tratar de um cargo público, o de professor (inclusive quem atua em escola particular) deve ser afastado das funções e continuar recebendo a remuneração. Ou seja, por não menos do que três meses, as verbas da educação vão financiar as eleições.

Acredita-se que por ter uma formação humanitária e contato constante com as amargurar da população, os professores sejam bons legisladores e lutem em prol da causa qualidade de nosso ensino e de melhoria para a categoria em extinção. Embora, experiências anteriores não contribuam para isso, mantem-se a utopia.

Mesmo assim, o autodidatismo, a disciplina, a liderança, a oralidade, a capacidade de planejar e avaliar, os valores sociais e morais aprendidos direta ou indiretamente nos cursos de licenciatura e com a experiência de ensinar são qualidades que os habilitam a exercer com maestria cargos eletivos. Mas antes de os exercer é preciso vencer nas urnas e talvez este seja o maior de nossos problemas no Brasil.

Em uma eleição para o grêmio estudantil da escola estadual que oferece exclusivamente ensino médio em Joinville, abertas as urnas, havia 107 votos a mais do que assinaturas, num universo de pouco menos de mil. A corrupção correu solta mesmo a eleição tendo a supervisão de um professor.

O problema da corrupção no Brasil é, portanto, "de berço". Se os estudantes consideram que "está tudo bem" fraudar as eleições para sua entidade representativa, cargos não remunerados, imagine o que farão em eleições para cargos públicos, com salário altíssimo para os padrões brasileiros.

É, realmente, o Brasil precisa repensar o ensino, a escola, os valores sociais, a valorização do professor – ser em extinção. Tudo o que está sendo ensinado nas escolas. Se por um lado, a sociedade luta pelos professores, instituindo meio ingresso, acreditando no trabalho deste profissional, por outro, a dura realidade "dá-lhe um tapa na cara".

Para concorrer com outros políticos, os professores afastam-se de seus "reinos particulares", as salas de aula, e visitam seus alunos, ex-alunos, amigos, parentes ou qualquer um que possa dar-lhe um voto E se está fora da sala de aula, continua professor?

Afinal, quem é professor? E a quem precisamos realmente valorizar. Ao profissional formado em licenciatura que ocupa cargo na escola como trampolim para "alçar outros vôos", ou aquele que continua em sala de aula ensinando e acreditando ser possível construir uma sociedade brasileira mais justa e igualitária e menos corrupta.

Os produtores culturais estão fazendo a sua parte. Quando os políticos, muitos professores por formação, farão o mesmo?

 
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