O preconceito religioso e a opressão nos meus filhos (Março/2012) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Jornal da Educacao   
26-Mar-2012


Tenho três filhos: Bruno (9), Louise (8) e Isabelle (5), todos inteligentes, queridos (como todo pai descreve os seus rebentos) e bem socializados, apesar de jaraguaenses. O Bruno tem a opinião própria sobre muitas coisas e, desde seus seis anos, quando me perguntou por que não rezávamos nem íamos à igreja, feito seus amiguinhos, contei-lhe sobre minhas convicções religiosas (nenhuma), bem como as da minha esposa, Sandra, mãe dos três pimpolhos.
 
 

Expliquei a ele e às meninas que eles teriam liberdade de escolher sobre sua religião ou abster-se de ter uma, o quanto quisessem. O Bruno já foi a missas e cultos cristãos, mas não se agradou (até porque as missas são chatas para as crianças e os cultos, em geral, tem muito barulho), ficou na dúvida sobre deus (com inicial minúscula: na prática, substantivo comum, pois cada um pensa o seu deus do seu jeito), até decidir, do alto de oito anos na época, que para ele, existir um criador de tudo não tem sentido. As meninas perguntaram se podiam ser do bem. Disse-lhes que honestidade, justiça, bondade, respeito, conhecimento e amor são as bases do bem, com ou sem religião. Ou não?
Ontem, na sala do Bruno, a professora de ER caiu na tentação de indagar a religião dos alunos. Após as respostas, ela questionou se tinha alguém que não acreditava em deus e ele, corajosamente, foi sincero. 
Ele sentiu o peso da opressão religiosa ainda em voga no Brasil, sentiu o preconceito e a discriminação: todos os alunos caçoaram dele, da sua opinião. Ele contou-me que teve vontade de chorar, todos rindo e apontando para ele, que se calou. 
A professora até tentou remediar, disse que todos eram iguais, mas o estrago foi feito. O Bruno disse que, diante de tanta pressão, preferirá mentir na próxima vez que perguntarem se ele acredita em deus. Eu não creio ser uma boa ideia, pois, mentir não faz parte dos valores de nossa família, expliquei-lhe. Hoje, ninguém brincou com ele...
O “Ensino Religioso” é, na imensa maioria das escolas brasileiras, ainda uma doutrinação religiosa, seja de católicos, seja de outras seitas cristãs. Na melhor das hipóteses, esta disciplina dissemina valores cristãos, num país laico, com dinheiro do governo. Nada contra o cristianismo, mas não se pode tender para esta ou aquela seita, numa república democrática, é injusto e imoral! 
Em escolas particulares confessionais, quem matricular os seus filhos sabe a doutrina pregada, mas em escolas públicas, o ensino é laico e científico, por força de lei!
Na teoria, nos planos de curso, um belo discurso: ecletismo, sincretismo. O planejamento das aulas fala em ecumenismo, fala de religiões africanas, asiáticas e da brasileiríssima umbanda. 
Dentre os objetivos, valores éticos e morais e o conhecimento das religiões e suas influências históricas e sociais. 
Que bom se fosse assim. NA PRÁTICA, o ensino religioso difunde preceitos apenas do cristianismo (geralmente com a crença católica como pano de fundo) ou os valores dos próprios professores.
 A maioria, dos “mestres” desta disciplina na rede estadual não possui formação acadêmica na área. Outras redes até possuem professores formados, mas que há tempos deixaram a fé cega dominar suas mentes e aproveitam a posição de destaque para apregoar suas verdades.
Muitos de meus pacientes homossexuais “aprenderam” que são “doentes” nestas aulas. Minhas filhas morrem de medo do inferno existir, devido às ameaças de maus professores. Eu mesmo testemunhei docentes desta excrescência (na forma como tal disciplina é dada) amedrontando crianças com a ideia de inferno e vingança divina. Aliás, onde aquelas crianças aprenderam a discriminar?
Nada contra a fé, se ela liberta o ser humano que tem nela o seu porto seguro. Nada contra a ideia e o costume dos pais ensinarem às crianças sobre sua crença, em casa na igreja, jamais na escola! 
Ensinar ÉTICA seria muito mais produtivo. Filosofia seria o ideal, nesta disciplina valorizando a formação de pensamentos éticos. Ensinar crença é diferente de mostrar religiões diversas.
Disse-lhes que jamais tivessem vergonha de sua opinião, nem de mudá-la, se não fizer sentido. Foi uma bela lição, dessas que a escola não ensina: ter opinião formada, que seja diferente da maioria (burra, segundo Caetano), é um fardo honrado a carregar, como a honestidade. Ao ouvir a conversa, as meninas me chocaram pela crueza:
 - “Pai, a religião deles deixa rir dos outros?” (Louise)
- “É feio rir dos outros! Era para os alunos serem ‘bonzinhos’, né pai? Quem é do mal?” (Isabelle).
 
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