Doenças profissionais no espaço acadêmico (Dezembro/2011) PDF Imprimir E-mail
Classificação: / 0
PiorMelhor 
Escrito por Jornal da Educacao   
14-Dez-2011


Inez Robert*

 A intensa mudança de paradigmas da moderna sociedade do trabalho assinala para a necessidade de profissionais cada vez mais qualificados e com um excelente nível de inteligência emocional, capazes de enfrentarem situações inusitadas constantes. 

Essa nova configuração, que tem exigido dos profissionais uma forte adaptação para atender aos perfis desejados, para alguns, tem se refletido em formas de adoecimento de sua relação com o ambiente de trabalho. 

 


As doenças profissionais têm merecido a atenção do país, sendo que conforme publicado no diário oficial da união de 8.11.2011, a presidenta da república, deliberou sobre o decreto executivo 7.602/2011 que define objetivos, princípios, responsabilidades e gestão para a Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho (PNSST), envolvendo uma ação conjunta da sociedade, visando promover melhoria da qualidade de vida do trabalhador para a prevenção de acidentes e danos à saúde, relacionados ou decorrentes do trabalho. 

A PNSST tem por princípios “a universalidade, a prevenção, a precedência das ações de promoção, proteção e prevenção sobre as de assistência, reabilitação e reparação; o diálogo social; e a integralidade” (DOU, 2011, WEB). 

Em reportagem veiculada pela Folha de São Paulo em 25.11.11, com o título “Afastamentos por doenças mentais disparam no país”, em entrevista concedida por Fraga e Borlina Filho (2011, web), verifica-se que “O mercado de trabalho, tornou-se um foco de doenças como depressão e estresse. A tendência já se reflete em forte aumento no número de brasileiros afastados pelo INSS por esse tipo de problema de saúde [...]” e, ainda que, “As concessões de auxílio-doença acidentário - que têm relação com o trabalho - para casos de transtornos mentais e comportamentais cresceram 19,6% no primeiro semestre de 2011 em relação ao mesmo período do ano passado”.

Especificamente no segmento da educação, muitos estudos têm sido dirigidos aos impactos dos desafios das atividades docentes e sua relação com uma doença conhecida como síndrome de Burnout. Essa síndrome representa uma resposta ao estresse ocupacional crônico provindo de fatores gerados a partir do ambiente laboral e respectiva discrepância entre as expectativas do trabalhador e a realidade que enfrenta. 

A síndrome é considerada um fenômeno psicossocial constituído de três dimensões: exaustão emocional, que se caracteriza pela falta ou carência de energia e um sentimento de esgotamento emocional; despersonalização, que é definida pelo tratamento de pessoas como objeto, considerando que o vínculo afetivo é substituído por um racional; e por baixo sentimento de realização profissional, que define a terceira dimensão, que é o envolvimento com o trabalho. 

Diferente do estresse, que possui um caráter agudo, transitório e não necessariamente negativo Burnout se instala paulatinamente, a partir de expectativas elevadas e não realizadas em profissões e profissionais com alto idealismo, que desejam ajudar os outros e esperam liberdade pessoal e autonomia em seu trabalho. A síndrome compreende uma erosão gradual de energia e disposição, como consequência da percepção de incapacidade crônica para controlar o stresse, começando com pequenos sinais de alerta, que se não percebidos, podem levar o profissional ao quase terror diante da ideia de ter que ir ao trabalho.

O tema é amplo, sua discussão vem mobilizando pesquisas acadêmicas diversas e deve ser considerado como muito importante para verdadeiramente consolidar uma sociedade comprometida com a qualidade dos ambientes laborais e, considerando o foco deste artigo, com a saúde do professor.

Desta forma, algumas recomendações podem ser antecipadas, como forma de minimizar a instalação de Burnout em uma classe trabalhadora de importância vital para nossa nação: a dos docentes. Tais ações não dependem exclusivamente da gestão eficaz da relação de trabalho, pois também o trabalhador deve focalizar a própria saúde e bem estar, considerando três principais focos de atenção: 

a) No (e do) professor, conciliando necessidades e interesses às disposições legais do espaço laboral, à escolha da profissão e à adoção de práticas como atividades de confraternização, esportivas de relaxamento e de convivência profissional; direito ao descanso, conforme previsto em lei e da compreensão das próprias necessidades; reflexões sobre a conciliação de jornadas de trabalho e a vida pessoal; investimento sobre o cuidado pessoal, em nome da autoestima e valorização. 

b) No ambiente de trabalho, promovendo condições estruturais adequadas e ferramentas para o adequado exercício das atividades laborais; políticas e práticas claras de reconhecimento, com critérios que eliminem protecionismos e diferenciações, mas que enalteçam desempenhos diferenciados; do posicionamento franco sobre a percepção de incompatibilidades do que é oferecido ao que é esperado da atuação profissional enquanto professor;

c) No (e do) indivíduo e sua relação com o ambiente de trabalho, envolvendo-o e dispondo-se a participar do planejamento de atividades e da definição de metas compatíveis aos recursos oferecidos; preservando a comunicação eficaz (objetiva e transparente); compartilhando experiências; zelando pelo bom e respeitoso convívio; assegurando o tratamento de questões que envolvam o relacionamento hierárquico, lateral ou com os estudantes; concedendo e recebendo com sabedoria feedback sistemático; promovendo (e participando) de capacitações, considerando qualificação em áreas de conhecimento necessárias ao novo perfil esperado para que o professor se sinta preparado para desafios conhecidos e novos.

Desta forma, independente de qualquer disposição legal, estabelecida ou que venha a se consolidar, que o ano de 2012, seja forte na priorização da saúde laboral a partir de práticas institucionais e da sabia consciência de cada profissional. Boas festas !!!

 

*Inez Robert é psicóloga com mestrado em Administração de Empresas – Ênfase em Gestão Estratégica, consultora em gestão de pessoas em Santa Catarina, Professora e Orientadora de Estágios para formandos em Psicologia, Administração de Empresas e Comércio Exterior. 

 

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
Advertisement

Qual a sua opinião?