Eu vim dar uma palestra... (Abril/2011) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Jornal da Educacao   
20-Abr-2011


Editor interino Pedro Ramos Pinto
Todos sabemos, desde tenra idade, intuitivamente, que o mal e o bem coexistem neste mundo. Esse saber antes um sentimento, uma sensibilidade, que um conceito obtido pelo aprendizado dos valores humanistas. Sabemos das coisas boas ou ms pelos sabores diversos que elas tm. Seria esperado, ento, que com o desenvolvimento pessoal e o aprendizado advindo da educao e da vida social, tal sensibilidade fosse ampliada e mais refinada.

Tudo bem que aparecessem dvidas eventuais sobre se algo seria um bem ou um mal. Um dilema nos mobiliza, nos alerta, desperta o pensar e nos faz decidir. A entra em cena o que trazemos desde sempre a partir da nossa existncia, a vontade, o livre-arbtrio. Quem decide pode errar, quem no decide, j errou.
Podemos questionar o livre arbtrio, mas sabemos que ele bem verdadeiro. Apesar de toda intuio, toda sensibilidade, todo aprendizado e desenvolvimento advindo da educao familiar, escolar e social, somos livres para escolher, sempre.
Pode-se fazer escolhas de todo tipo: rpidas, precipitadas, demoradas, lentas, pensadas, estudadas, planejadas, certas, erradas, boas, ms, e mesmo quando no se escolhe, isso uma escolha. Ento, por que no se pode escolher quem pode dar palestras nas escolas, e sobre que temas?
Sem sequer pensar em apontar culpa nos funcionrios da escola de Realengo, que agiram como educadores, receptivos ao receber um ex-aluno, no sentimento de boa f comparvel a agentes religiosos e pacificadores, numa cultura em que a escola se situaria como lugar e entidade de respeito e at venerao incondicionais, no se pode deixar de perceber que no se pode mais agir desse modo.
Para ser admitido dentro de uma escola, num lugar em que se encontra a verdadeira riqueza de um povo, que so seus filhos, seu futuro, bem humano nico em sua diversidade, existncias em formao, h que se ter critrios, e todos os cuidados sero poucos. uma escolha que teremos que fazer pois que no podemos escolher ter de volta os estudantes assassinados.
Vejo nas notcias que se declara o assassino como desequilibrado, louco, insano, esquizofrnico, mas ele me parece mau, principalmente mau. Louco quem faz mal a si mesmo, contraria o instinto vital de autopreservao e, sem qualquer identificvel inteno ou motivao extra, flagela-se ou abandona-se destruio de seu ser, e no foi esse o caso.
Houve maturao da raiva, houve pesquisa por um modo de despej-la no mundo, houve planejamento, preparao, houve reconhecimento do terreno, houve investimento em armas, munio, equipamentos, houve a postagem de mensagens, houve preocupao com bens, houve a sistemtica e fria execuo de todo o crime e do modo de escapar de qualquer punio humana. Isso maldade antes de ser loucura. E ele no estava s.
A histria de vida desse louco bem difcil. A me suicida concebeu-o com outro interno de clinica psiquiatrica. Adotado, teve irmos, frequentou escola pblica - no agravante - e concluiu, gozava de sade fsica, no consta que passou fome de comida, mas era faminto de afeto. No tinha passagens ou queixas na polcia. Morava em local prprio, tinha acesso internet, mas lhe faltavam bons amigos, habilidade nos relacionamentos com as meninas, que ele fez questo de matar na escola, e principalmente, lhe faltou fazer as boas escolhas.
No dizer de um mestre capoeira, no mundo o mal vai te achar, o bem voc tem que procurar. Ele procurou e optou pelo mal.
Uma vez um amigo me disse que h no mundo humano um embate entre o bem e o mal, e que h uma tendncia ao equilbrio entre esses dois, ora temos mais de uma que de outra, mas a somatria geral de um e outro tende a se igualar.
Sempre torci para que ele estivesse errado nisso, que o bem deveria ser mais e maior, hoje comeo a admitir sua razo. Se bem e mal coexistem como luz e sombra, dialticos, ento qual o bem que se seguir a essa maldosa tragdia? Palestras?

 
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