Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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Meditação e fé na caverna da Tailândia

       

 

       O mundo acompanhou o drama dos doze meninos do time de futebol “Javalis Selvagens” e de seu técnico Ekapol Chanthawong, presos durante mais de duas semanas em uma caverna na Tailândia. O grupo sobreviveu nove dias no escuro, até ser encontrado por dois mergulhadores ingleses. No dia 10 de julho foi retirado o último membro da equipe, o treinador. Todos queriam saber: quem eram aquelas crianças, que resistiram tanto tempo em condições tão precárias? Aos poucos as informações foram chegando e fomos sabendo quais teriam sido os principais fatores que contribuíram para que todos saíssem com vida da caverna.

       Além da água que escorria das paredes, do lanche que eles haviam levado junto no passeio e da coragem dos socorristas, a meditação e a fé religiosa foram fundamentais para sua sobrevivência. Chanthawong já foi monge budista e ensinou sua equipe a meditar naqueles momentos difíceis. Adul Samon, de 14 anos, o único cristão do grupo, tinha fé no seu Deus, e isso deve ter contribuído para sua certeza de que no final, tudo daria certo.

       A meditação não é exclusiva do budismo, mas na Tailândia, por ser um país de maioria budista, quase todos a praticam. Especialistas ensinam que na meditação, o foco não está na culpa, e sim na solução. A mente tomada pela culpa, dizem, fica prejudicada e acontece um desequilíbrio emocional, o que dificulta a paz interior. Isso é muito interessante, pois se observarmos é o oposto de muitas orações cristãs, cuja tendência é enfatizar a culpa, trazendo o eterno sentimento da má consciência em seus devotos.

       A tradicional prece da Ave Maria diz: “Rogai por nós pecadores.” Outra nos lembra do terrível castigo eterno: “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno.” Essa oração, em especial, trouxe-me recorrentes pesadelos na minha infância. A Ladainha de Nossa Senhora repete oito vezes a frase “tende piedade de nós.” Na Oração de São Bernardo a Nossa Senhora, temos: “... gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro a Vossos pés”.

       Há muitas orações cristãs bonitas e confortadoras, mas parece que as mais repetidas são aquelas que enfatizam nosso lado pecador, e penso que isso não ajuda muito. Talvez aí esteja a grande diferença entre o cristianismo e o budismo.

       Enquanto uma nos coloca na posição de eternos pecadores, e adia a felicidade para depois da morte, a outra procura nos libertar do sofrimento agora.
       

       Não creio que Adul Samon tenha pensado em orações que enaltecem seu lado pecador. Acho mais provável que ele tenha se lembrado desses versos de São Francisco: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz... Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria; Onde houver trevas, que eu leve a luz”.

       E das piedosas palavras de Jesus: “Em verdade vos digo: se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela irá; e nada vos será impossível.” Então me parece que não importa qual a religião, qual sua fé, as técnicas usadas para manter-se firme; se você deseja sair de um problema, e acreditar que poderá obter êxito, as chances serão maiores. Só tenha cuidado com os pensamentos e as palavras.

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