Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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O papa e Emanuel, o menino angustiado

 

Dia 15 do mês passado, domingo, o papa Francisco conversava com um grupo de fiéis, na periferia de Roma, quando Emanuel, menino de oito anos, perguntou ao papa, com voz de choro, se seu pai, que era ateu e havia morrido recentemente, iria para o céu.

Para quem não soube do caso, conto aqui resumidamente qual foi a resposta do papa ao garoto Emanuel, que foi anunciada ao público presente, após Francisco pedir autorização ao menino. Disse o papa:

“Há pouco tempo seu pai morreu. Ele era ateu, mas batizou os quatro filhos (...) O filho disse que o pai era bom. Aquele homem não era crente, mas batizou seus filhos. Ele tinha dúvida por seu pai não ser crente estaria no céu. Quem diz quem vai para o céu é Deus, mas como está o coração de Deus diante de um pai assim, não fiel, que foi capaz de batizar seus filhos? Deus abandona seus filhos quando são bons?”

E o povo diz: ‘Não’, meio timidamente, alguns nem respondem porque talvez não concordem com o papa que ateus, mesmo bons, vão para o céu, porque as Escrituras dizem que só quem crê e é batizado será salvo (Marcos 16,16).

Finalmente o papa responde: “Aqui está Emanuel a resposta: Deus certamente está orgulhoso de seu pai, porque é mais fácil ser um fiel e batizar seus filhos do que não sendo fiel batizá-los, e certamente isso agradou muito a Deus.”

Francisco não responde ao menino se o pai dele foi para o céu, mas deixa subentendido que Deus acolheria aquele ateu no céu, porque era bom e batizou seu filho.

Embora sua atitude generosa com este pai ateu, sugerindo que Deus o receberá no paraíso, vejo um problema grave na resposta do papa, pois ele exclui da misericórdia divina os outros pais ateus, igualmente bons, que morreram sem batizar seus filhos.

Suponho que para o papa, estes ateus que não passaram seus filhos pela água benta, serão duramente penalizados por trilhões de anos na cela de fogo, como prometem as Escrituras a todos que não creem e não são batizados.

O que o papa deveria dizer àquelas crianças, filhas de ateus que morreram e não as batizaram?

Deveria dizer que seus pais estão no inferno porque quando elas nasceram eles não as banharam com a água batismal? Consegue imaginar o trauma para essas crianças?

Vamos imaginar que elas foram batizadas mais tarde, depois que seus pais morreram. Assim, de acordo com a teologia bíblica, se elas forem crentes, vão para o céu, mas seus pais, por não acreditar, serão encaminhados para as profundezas do inferno.

Que alegria terão no céu esses indivíduos, se seus pais padecem dos rigores do castigo eterno?

Ora, será mesmo que Deus precisa tanto da crença dos ateus, a ponto de querer castigá-los só porque não conseguem crer e porque não batizaram suas crianças?

O papa tem feito uma grande revolução na Igreja, mas ainda falta dizer a verdade sobre muitos dogmas que atormentam os fiéis há dois mil anos.

A crença em Deus e no céu, dependendo como se crê, é útil e boa. Eu mesmo imagino rever algum dia no céu meus pais e irmão já falecidos. “Consolo psicológico”, dirão os céticos. Não interessa, é um sonho bom, que me traz paz e diminui um pouco a dor da saudade, que não superei até hoje, especialmente de minha mãe.

Mas a ideia de inferno é terrível, uma maldade teológica, pois exclui do céu e da presença de Deus todos os outros que seguem religiões diferentes da cristã ou não pensam igual à Igreja.

Meu próximo artigo examinará a origem do inferno, segundo estudos antropológicos, culturais, filosóficos e psicológicos. Um lugar real, ou mais um mito criado pelas religiões?

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